O fim da razão?

9 de dezembro de 2010 — 2 Comentários

No meio pentecostal é muito comum vermos as pessoas supervalorizarem as manifestações do Espírito na igreja. Eu não entendo bem o porquê, mas elas tendem a associar isto ao fim de qualquer racionalidade humana. É como se pensassem que quando Deus regenera nosso coração, no “contrato” esteja o aniquilamento do nosso cérebro, da nossa capacidade de raciocinar, discernir e compreender as coisas.

Existe um sofisma de que, após o novo nascimento, a razão é extinta e então, Deus passa a pensar no nosso lugar. Tudo o que precisamos fazer, segundo esse pensamento, é entrar numa espécie de “estado vegetativo” onde não precisamos compreender nada, mas tudo é apenas “recebido” por uma suposta revelação – por osmose.

Viver pela fé, para alguns, virou sinônimo de viver na ignorância.

É evidente que tais pessoas se munem de uma meia dúzia de versículos fora dos seus contextos, para serem “bíblicas” nas suas declarações (se é que se pode chamar assim). Elas afirmam: “Paulo desprezou o conhecimento que possuía, considerando-o como esterco por causa do evangelho” (Fp 3.8). Ou mesmo: “ele disse que a sua pregação não consistia em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em manifestações do Espírito e de poder” (1 Co 2.4)

Mas o que Paulo queria de fato dizer com estas afirmações? Que não há poder nas palavras? Que é apenas através da manifestação dos dons espirituais que o poder de Deus é demonstrado? Que o conhecimento das coisas naturais é desprezível? Que a Palavra de Deus é sem sentido, sem lógica, totalmente irracional e jamais poderá ser compreendida pela mente?

De forma alguma! A Palavra de Deus é completamente LÓGICA, palavra cujo significado é “coerência de raciocínio, de idéias”.

Deus não é incoerente nos seus pensamentos. As coisas de Deus não são “sem lógica”, como alguns pensam e declaram. Elas podem até ser loucura, mas não para nós, pois é “para os que se perdem que o são” (2 Co 2.13).

Acontece que nós ficamos tanto tempo com as nossas mentes “corrompidas pelo engano do pecado”, que só mesmo “renovando-as” bem com a Palavra de Deus é que poderemos experimentar o sobrenatural como algo natural, discernindo bem todas as coisas e assimilando os pensamentos de Deus.

Na verdade, o problema não está na Palavra ou no caráter de Deus, como se estes fossem enigmas indecifráveis, ou uma pegadinha do tipo “cachorro atrás do rabo”. Não! O problema está no quanto estamos envolvidos na dimensão primária para a qual fomos criados: a espiritual. Quanto mais apegados às coisas espirituais, mais “naturais” elas nos parecerão, pela familiaridade que vai sendo gerada pelo contato contínuo com o Espírito. É por isso que Paulo afirma:

As quais também falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina, COMPARANDO AS COISAS ESPIRITUAIS COM AS ESPIRITUAIS. (1 Coríntios 2.13)

Paulo experimentou andar numa realidade diferente da qual estamos acostumados e nos incita a desejar isso. Ele nos convida a comparar coisas espirituais com espirituais.

Perceba que, geralmente, Jesus usava parábolas, fazendo comparações entre coisas naturais e espirituais, para que por meio das coisas que se vêem, pudéssemos compreender as que não são visíveis. No entanto, ele estava lidando com pessoas que ainda não eram nascidas de novo!

Entretanto, o apóstolo Paulo eleva o nível de compreensão do crente a outro patamar! Ele revela que é chegado o tempo de compararmos coisas espirituais com espirituais, e não mais naturais, e por quê?

Porque “…o [homem] que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido. Porque, quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? MAS NÓS TEMOS A MENTE DE CRISTO” (2 Coríntios 2.15,16b).

Aleluia! É uma verdade esclarecedora o fato de termos a mente de Cristo. Perceba que a Palavra não diz que nós apenas temos o coração de Cristo ou somente somos o seu corpo, mas também que temos a sua mente!

O que Paulo estava dizendo era simplesmente que, agora que temos a mente (o intelecto, as faculdades inteligentes) de Cristo, somos convocados a expressar os seus pensamentos, a ver a vida de uma nova perspectiva, não limitada, não natural ou carnal, mas de uma perspectiva eterna, usando para isso, também o nosso entendimento.

É por meio do pensamento, do raciocínio, que compreendemos e aceitamos a Palavra de Deus. Foi Jesus mesmo quem falou que “o que foi semeado em boa terra é o que ouve e COMPREENDE a palavra” (Mt13.23). Ora, como compreenderíamos a Palavra sem que usássemos a mente para tal?

Além disso, a Bíblia nos exorta a “amar a Deus… de todo coração, com todas as nossas forças, de toda a alma e com todo o ENTENDIMENTO” (Mc 12.30). Concluímos, portanto, que uma das regras básicas do Reino de Deus, é que devemos amar a Deus de forma racional.

A Palavra também nos ensina que éramos “inimigos de Deus no ENTENDIMENTO” (Cl 1.21), e que os que estão no mundo estão “ENTENEBRECIDOS NO ENTENDIMENTO, separados da vida de Deus, pela ignorância que há neles” (Ef 4.18 – RC). Isso nos dá a entender que o nosso entendimento é uma peça fundamental para as coisas do reino de Deus.

Paulo mesmo orientou os Romanos a prestarem um “culto racional” a Deus e a que “renovassem a MENTE” com a Palavra, porque só assim poderiam experimentar a vontade de Deus.

Pergunto-me quantos dos nossos irmãos “espirituais” não se escandalizariam com as assertivas de Paulo se meditassem profundamente nelas! Veja que ele não tenta espiritualizar o mandamento mais do que ele já é espiritual, mas de forma clara e direta, orienta: é através da renovação da nossa mente que podemos alcançar a manifestação da vontade de Deus em nós!

Não é curioso que Paulo não tenha dito: “alimentem cada vez mais a fé de vocês, e irão experimentar a vontade de Deus” ou “cuidem dos seus espíritos e procurem ser usados nos dons, e vão experimentar a vontade de Deus”. Não! Ele disse: substituam os pensamentos errados que vocês têm, pelos certos que Deus apresenta, e experimentarão a vontade de Deus. Sejam racionais, sim!

De forma racional, decidimos ou não nos santificar e apresentar os nossos corpos como sacrifício vivo a Deus. Essa não é uma escolha inconsciente ou irracional. É uma decisão que envolve pensamentos, raciocínio, choque entre idéias e uma análise da relação de custo-benefício, onde temos o poder de escolher não pecar porque sabemos os prós e contras dessa decisão.

O que não podemos, entretanto, é limitar o agir de Deus por e através de nós, quando as suas direções parecerem “improváveis” – para não dizer “loucas”. Creio que esse deva ser o maior cuidado que devemos ter. Podemos ser uma bênção para o Reino e para as pessoas quando obedecemos a Deus, mesmo que momentaneamente não estejamos compreendendo algumas das suas direções. De fato, andar pela fé requer a ousadia de ir em frente, mesmo quando não compreendemos a direção, e não sabemos o que vem depois, mas o testemunho do nosso coração nos dá paz…

Contudo, essa não deve ser a regra pela qual conduziremos a nossa vida, pois Deus nos deu a capacidade de pensar e escolher, criar e governar, e é seu desejo que sejamos exatamente aquilo que ele nos criou para ser.

O Cristianismo, portanto, não é o fim da razão, mas o fim da insanidade!

Luciana Honorata

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2 Respostas para O fim da razão?

  1. 

    Oh gloria ! amem e amem… a verdadeira mudança começa de dentro pra fora…
    Lu! amei vc ja passou pela boa ,agradavel ,e agora ta desfrutando em sua vida da perfeita vontade de Deus ,para dar testemunho DEle glorificando o nome de Jesus Cristo.

  2. 

    Muito interessante sua exposição. Há algum tempo, quando eu decidi racionalmente a “deixar Deus viver em mim” eu me pegava na dúvida e no receio de estar deixando Ele fazer as coisas no meu lugar, ou que Ele iria pensar e decidir por mim, desejar e falar sem que eu tivesse o controle dos meus pensamentos e ações, como se eu fosse uma marionete. Com o tempo eu fui compreendendo e tendo a real experiência de como é deixar o Espírito Santo fluir em nosso cotidiano. Ele não muda os meus desejos, nem me faz fazer coisas sem que eu me dê conta, não me faz dizer coisas que eu não sei de onde vem…. Ele (pelo menos para mim) vem como um instinto, um sentido, uma “voz interior” que não fala mas me faz refletir….. Não tem muito como explicar, mas eu tenho a certeza de que Ele me “mostra” além do que eu via antes e me dá a LIBERDADE de analisar melhor minhas expectativas, minhas decisões. Ele me diz “Você tem certeza disso?” e eu tenho MAIS UMA CHANCE de pensar . Ou seja, Ele me racionalizou mais, me fez analisar com mais calma e por ângulos diferentes, Ele me fez ENXERGAR SOLUÇÕES que eu nuuunca nunquinha pensaria sem os “clicks” que o Espírito Santo me dá. E sempre que eu tomo decisões seguindo esse “instinto”, eu percebo mais pra frente que tomei a decisão mais certa que eu poderia ter tomado… Ahh eu adoro ter ele como parceiro e conselheiro!

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