Clichês

17 de março de 2011 — 4 Comentários

Oi gente! Voltei!!!

Depois de quase um mês de “férias” do blog, finalmente vou postar algo. É algo que vinha sempre voltando à minha mente como tema, e decidi me render. Espero que você seja abençoado!

Abraço grande!

Clichês

Houve um tempo na minha vida em que eu odiava clichês. Para mim, eles pareciam coisa de gente preguiçosa, que não sabia ou não queria pensar com a própria cabeça, que não queria construir alguma coisa original e particular. Eu fugia disso “como o diabo foge da cruz”, evitando falar ou fazer qualquer coisa muito ordinária, previsível ou óbvia demais.

É exatamente isso que os clichês são: um lugar-comum, chavão, banalidade repetida com frequência, como define o dicionário.

É o tipo de coisa que você diz porque ouviu alguém dizendo e achou bonito ou filosófico, digno de ser retwittado. Pode também ser algo verdadeiro e profundo, que precisa mesmo ser falado a alguém que ainda não teve a oportunidade de ouvir… Depende. Os clichês podem sim, ser nocivos quando mal utilizados, mas também podem ser uma bênção – tudo depende de como os usamos.

Notei que podemos repetir frases feitas como papagaios, sem sequer saber o que estamos dizendo, ou pensar sobre a profundidade das nossas declarações e dizê-las com sobriedade.

“Deus é fiel”, claro, não importa se eu experimentei a fidelidade dele, ou o que isto representa na minha vida prática, mas “Deus é fiel”, amém? A fidelidade de Deus torna-se um chavão nas nossas bocas, se não estivermos usufruindo da revelação desta verdade e nos apoiando nela nos momentos de dificuldades, assim também como nos momentos de bonança.

Quantos de nós realmente sabemos que a fidelidade de Deus quer dizer que ele vela (cuida, vigia) para que sua Palavra se cumpra? (Tanto as promessas de bênção, como as de juízo).

Sim, Deus é fiel para garantir que a prosperidade e a cura se manifestem nas nossas vidas, mas também é fiel para manter de pé a certeza da colheita indesejada, aquela que semeamos na carne e a Bíblia assegura que colheremos corrupção (Gl 6.8). Não quero entrar nos méritos desta doutrina, já que o assunto aqui são os clichês e não a fidelidade de Deus, mas o que eu quero ressaltar é que talvez você tenha repetido verdades como estas até hoje, sem reconhecer o que significam de fato.

Podemos pregar os adesivos de clichês nos vidros dos nossos carros, nos pára-choques dos caminhões, nos cadernos da escola ou ter emoldurados nas paredes das nossas salas, mas talvez nunca nos perguntarmos sobre o real sentido dos pensamentos que multiplicamos.

É por causa dos clichês que muitas doutrinas enganosas acerca do caráter de Deus foram disseminadas e permanecem sendo mantidas como se fossem pensamentos bíblicos e espirituais.

Quem nunca ouviu algum crente falando “Quem não vem a Deus pelo amor, vem pela dor, aleluia!” e frases do mesmo tipo, que ele pode jurar estar na Bíblia, e até passar alguns dias procurando a referência, na tentativa de te convencer que ele leu ali em algum lugar, só não está bem lembrado onde?

Seria cômica se não fosse trágica essa mania que o povo de Deus cultiva de repetir pensamentos e frases feitas da cultura em geral e, infelizmente, dos seus pregadores prediletos, pois isto pode custar muitos erros e desviar as pessoas do que a Bíblia chama de “sã doutrina” (Tt 2.1).

O ideal é que nós tenhamos o mesmo hábito que tinham os cristãos da cidade de Beréia na igreja primitiva, de receber a Palavra não apenas com avidez, mas com critério, “examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim”. (Atos 17.11). A Bíblia descreveu estes crentes como “mais nobres” no fim das contas, pois este é o tipo de atitude que nos privará de erros, e de repetir coisas que não entendemos ou não  sabemos se são mesmo verdadeiras.

Desconfio seriamente que este era um dos motivos pelos quais Jesus ensinava por meio de parábolas. Ele falava para o povo judeu quando estava na Terra, e os judeus conheciam a Bíblia de “capa a capa”, decorada, até de trás pra frente. Não surtiria muito resultado simplesmente citar o versículo, pois certamente algum israelita sequer deixaria Jesus terminar e completaria a citação, cheio de orgulho por conhecer as Escrituras como muitos de nós fazemos hoje em dia na igreja.

Falar por parábolas é transitar por um caminho desconhecido, é aplicar o conceito na prática, fazer ver por outro ângulo… É caminho fora de clichês!

Jesus sabia fazer isso como ninguém, e deu-nos exemplo para que o façamos também. Talvez você não precise dizer “Jesus te ama” para seu vizinho ou sua avó, que provavelmente responderão de pronto, “a todos nós”, mas expressar e falar do amor de Deus de uma forma inesperada. Assim também podemos fazer em várias outras situações, e ensinar princípios da Palavra às pessoas de uma forma singular, procurando outros caminhos menos transitados.

Em contrapartida, às vezes os clichês são mesmo necessários. Eu já mencionei a minha resistência a eles e expliquei o porquê de sempre tê-los evitado, no entanto, chegou a hora de dar a César o que é de César, e admitir que às vezes eles abençoam muito. Extingui-los radicalmente na verdade seria um erro tão fatal quanto abusar deles. Para isto, vou contar um breve testemunho.

Certo dia, eu estava aconselhando uma mocinha que estava passando por problemas emocionais, quando um monte de chavões me veio à ponta da língua. Eu não sabia que estava sendo inspirada por Deus a princípio, e retive alguns deles, mas logo reconheci a unção do Espírito e comecei a falar aquilo que estava recebendo sem conter palavra alguma. Depois de uma série de “Você é a menina dos olhos de Deus”, “Deus te ama como você é”, e chavões do gênero, ela se derramou em lágrimas, dizendo que ninguém nunca lhe havia falado aquelas coisas, e que ela não sabia que era assim. Aquela moça foi, finalmente, liberta.

Percebi no meio disso tudo, que coisas que são comuns para nós, podem ser incomuns para outras pessoas que estão precisando justamente daquelas palavras, não importa se elas são lugar-comum ou não.

O que nós precisamos afinal é discernir quando e como usar as palavras, sendo sempre guiados no Espírito, e fluindo na inspiração que ele nos traz.

Cuidemos, portanto, para que tudo aquilo que fizermos não seja um clichê na sua essência (uma repetição banal de algo) mas que, até mesmo quando lançarmos mão de uma “frase feita”, seja feito com entendimento e unção, pois isto pode “salvar” a nossa vida, bem como a de muitos outros.

Luciana Honorata

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4 Respostas para Clichês

  1. 

    Você escreve muito bem (Amei seu comentário, suas argumentações, a defesa de suas convicções e a reavaliação de pensamento e postura)…!

    Renato Russo cita em em de suas músicas: “…mas quais são as palavras que nunca são ditas.” O problema não são as repetiçoes de palavras, frases, pensamentos; mas como são ditos, porque são pronunciados e a que oportuna ou necessária hora são utilizados.

    Como já disse alguém: “Criatividade não é invertar algo novo e sim reiventar algo que já existe, dando-lhe uma nova roupagem e utilidade”. – Deus faz assim conosco todos os dias: Ele nos reiventa.

    Acertadamente, você mesma disse (e eu concordo plenamente): “…coisas que são comuns para nós, podem ser incomuns para outras pessoas que estão precisando justamente daquelas palavras, não importa se elas são lugar-comum ou não.” – Opa! Usei clichê?

    forte abraço,
    Luiz Carlos Reis

  2. 

    Graça e paz Luciana, belo artigo.
    Lembro-me das palavras do apostolo Paulo: Examinai tudo. Retende o bem.” (1 Te. 5:21)
    Os clichês nos ajudam sempre quando na hora “H”nos faltam uma palavra, ou quando aquele clichê falou muito conosco e queremos repetí-lo ou transmití-lo para outrem, mas precisamos, como você mesma disse, ter cuidado com eles, pois de forma errada, na hora errada e no momento errado podem se transformar em setas malignas, mas por outro lado, quando dito com amor e fé, ele produz grande alegria e pode transformar o dia de quem lê ou escuta, por isso eu também faço uso deles.
    Luciana, o melhor de Deus está por vir na sua vida, confia apenas e ver abenção de Deus sendo multiplicada sobre a sua vida.

    Deus seja contigo.

    José Luiz dos Santos
    Diácono
    http://joseluizbans.blogspot.com/

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