Davi, Saul e o Perdão

25 de março de 2011 — 1 Comentário

Este é um dos trechos literários mais belos e inspiradores que já li acerca de perdão. Na verdade, não me lembro de ter visto alguém expressar com mais beleza e precisão a dor da ofensa e a virtude do perdão. Quando é difícil esquecer algo que alguém me fez, volto às Palavras de Jesus, parafraseadas por Max Lucado nesta brilhante narrativa que está contida no seu livro “Derrubando Golias”

Se você começar a ler, não vai conseguir parar!

Abração e até o próximo post!

“Os Sauls ainda abalam nossos mundos. Eles ainda, sem razão, inexplicavelmente nos mutilam e deixam cicatrizes. Mas como?

Davi pode nos dar algumas idéias. Quando Saul dá uma de deus e entra no mundo de Davi, Davi se lança no deserto, onde encontra refú gio entre as cavernas próximas ao Mar Morto. Várias centenas de legalis tas o seguem. O mesmo acontece com Saul. E, em duas cenas dramáticas no deserto, Davi exemplifica como transmitir graça à pessoa que não lhe dá outra coisa senão sofrimento.

Primeira cena. Saul faz sinal para que seus homens parem. Eles param. Três mil soldados param de marchar enquanto seu rei desce do cavalo e sobe a encosta da montanha.

Dá para fritar um ovo no chão da região de En-Gedi. Os raios de sol ferem  o pescoço dos soldados. Lagartos alojam-se por trás das pedras. Escorpiões ficam na lama. E cobras, como Saul, procuram descanso na caverna.

Saul entra na caverna “para fazer suas necessidades. Davi e seus sol dados estavam bem no fundo da caverna” (1 Samuel 24:3). Com os olhos embaçados por causa do sol do deserto, o rei não consegue perceber os vultos silenciosos que se alinham nas paredes.

Mas você não sabe que eles vêem o rei. Enquanto Saul atende ao chamado da natureza, inúmeros olhos arregalam-se. A mente desses ho mens voa e as mãos estendem-se para pegar lanças. Um golpe da espada levará a tirania de Saul ao fim e eles não terão mais de fugir. Mas Davi faz sinal para que seus homens se contenham. Ele esgueira-se pela parede, desembainha sua faca e corta não a carne, mas o manto de Saul. Davi então volta para o fundo da caverna.

Os homens de Davi não podem acreditar no que seu líder fez. Nem o próprio Davi. Contudo, seus sentimentos não refletem os de seus homens. Eles acham que ele fez muito pouco; ele acha que já fez coisa demais. Em vez de tripudiar, ele arrepende-se.

Mas Davi sentiu bater-lhe o coração de remorso por ter corta do uma ponta do manto de Saul, e então disse a seus soldados: “Que o SENHOR me livre de fazer tal coisa a meu senhor, de erguer a mão contra ele, pois é o ungido do SENHOR” (24:5,6).

Saul sai da caverna e Davi logo o segue. Ele levanta a ponta de suas vestes e, com todas as letras, grita: “Eu poderia tê-lo matado, mas não o matei”.

Saul ergue os olhos, espantado, e pergunta em voz alta: “Quando um homem encontra um inimigo e o deixa ir sem fazer-lhe mal?” (24:19).

Davi faz isso. Mais de uma vez.

Alguns capítulos adiante, Saul está, novamente, perseguindo Davi. Davi volta a bancar o esperto para o lado de Saul. Enquanto o acampa mento do rei dorme, o atrevido Davi e um soldado esgueiram-se pelos soldados até que alcançam o rei, que roncava. O soldado implora: “Hoje Deus entregou o seu inimigo nas suas mãos. Agora deixe que eu crave a lança nele até o chão, com um só golpe; não precisarei de outro” (26:8).

Mas Davi não deixa. Em vez de tirar a vida de Saul, ele tira-lhe a lança e o jarro com água e foge do acampamento. A uma distância segura, ele acorda Saul e os soldados com um aviso: “Ele [o Senhor] te entregou nas minhas mãos hoje, mas eu não levantaria a mão contra o ungido do SENHOR” (26:23).

Mais uma vez, Davi poupa a vida de Saul.

Mais uma vez, Davi revela uma mente cheia de Deus. Quem do mina seus pensamentos? “O SENHOR recompensa… o ungido do SE­NHOR… que o SENHOR também considere” (26:23-24).

Mais uma vez, pensamos nas coisas que promovem dor em nossa própria vida. Uma coisa é transmitir graça aos amigos, mas transmitir graça àqueles que nos causam sofrimento? Você conseguiria? Se passasse alguns minutos seguidos com o Darth Vader, o vilão de Guerra nas Estre las, de seus dias, você conseguiria imitar Davi?

Talvez você pudesse. Algumas pessoas parecem ser agraciadas com glândulas de misericórdia. Elas escondem perdão, sem nunca guardar ran cores ou revelar suas feridas. Para outros de nós (para a maioria de nós?) é difícil perdoar nossos Sauls.

Perdoamos os que nos ofendem uma vez, lembre-se. Repudiamos os que tomam nossa vaga no estacionamento, os que não honram com­promissos e até os que roubam carteiras.

Podemos passar batido pelos pequenos delitos, mas e os crimes capitais? Os que nos ofendem de novo? Os Sauls que levam nossa juventude, nossa aposentadoria ou nossa saúde?

Se um patife desses buscasse sombra em sua caverna ou estivesse dormindo aos seus pés… você faria o que Davi fez? Você conseguiria perdoar o canalha que o machucou?

Não conseguir fazer isso talvez seja fatal. “O ressentimento mata o insensato e a inveja destrói o tolo” (Jó 5:2).

A vingança faz sua atenção prender-se aos momentos mais feios da vida. A desforra faz seus olhos concentrarem-se em eventos dolorosos de seu passado. É para lá que você quer olhar? Contar e reviver suas feridas fará de você uma pessoa melhor? De forma alguma. Isso irá destruí-lo.

Ele enfrentou Saul como enfrentou Golias — colocando-se diante de Deus ainda mais. Quando os soldados na caverna instigaram Davi amatar Saul, veja no que Davi estava pensando: “Que o SENHOR me livre de fazer tal coisa a meu senhor, de erguer a mão contra ele, pois é o ungido do SENHOR” (1 Samuel 24:6).

Quando gritou para Saul da entrada da caverna, “Davi inclinou-se, rosto em terra” (24:8). Depois reiterou sua convicção: “Não erguerei a mão contra meu senhor, pois ele é o ungido do SENHOR” (24:10).

Na segunda cena, durante o ataque ao acampamento de noite, Davi manteve sua convicção: “Quem pode levantar a mão contra o ungido do SENHOR e permanecer inocente?” (26:9).

Nessas duas cenas, contei em seis as vezes em que Davi chamou Saul de “o ungido do SENHOR”. Você consegue pensar em outro ter mo que Davi poderia ter usado? Desmancha-prazeres miolo mole, chinelão me vêm à mente. Mas não à mente de Davi. Ele não via Saul como o inimi go, mas como o ungido. Recusou-se a ver o homem que o fazia sofrer como algo menos que um filho de Deus. Davi não aprovou o compor tamento de Saul; ele simplesmente reconheceu o dono de Saul — Deus. Davi filtrou o que via acerca de Saul usando a peneira do céu. O rei ainda pertencia a Deus, e isso deu esperança a Davi.

Alguns anos atrás, um cão atacou nossa filhote de Fila Brasileiro. O animal desprezível pulou sua jaula e entrou em nosso pátio e quase a matou. Ele deixou-a com vários cortes e com a orelha quase pendurada. Meus sentimentos para com aquele vira-lata não eram nada parecidos com os de Davi. Se nos deixassem, os dois, em uma caverna, apenas um sairia vivo. No outro dia, muito cedo, fui ao dono do cão e quase o obriguei a mata-lo.

Mas quando falei com o adestrador do tal bichano, ele pediu que eu re considerasse.

— O que aquele cachorro fez foi horrível, mas eu ainda o estou treinando. Não terminei meu trabalho ainda.

Deus diria o mesmo sobre o monstro que atacou você.

— O que ele fez foi inconcebível, inaceitável, imperdoável, mas não terminei meu trabalho ainda.

Seus inimigos ainda figuram no plano de Deus. O pulso deles é a prova: Deus não desistiu deles. Talvez eles estejam fora da vontade de Deus, mas não estão fora do alcance de Deus. Você honra Deus quando os vê, não como fracassos de Deus, mas como projetos de Deus.

Além disso, quem nos encarregou do serviço de vingança? Davi entendeu isso. Da entrada da caverna, ele declarou: “O SENHOR jul gue entre mim e ti. Vingue ele os males que tens feito contra mim, mas não levantarei a mão contra ti… O SENHOR seja o juiz e nos julgue”.

Deus ocupa o único assento na corte suprema do céu. Ele usa a beca e se nega a dividir o martelo. Por essa razão, Paulo escreveu: “Nunca procurem se vingar, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito:’Minha é a vingança; eu retribuirei’, diz o Senhor” (Romanos 12:19).

A vingança tira Deus da equação. Os que fazem justiça pelas pró­prias mãos tomam o lugar de Deus. “Não tenho certeza de que o Senhor poderá cuidar disso. O Senhor pode castigar muito pouco ou devagar demais. Deixe esse assunto nas minhas mãos, obrigado.”

Somente Deus determina sentenças exatas. Impomos castigos leves ou severos demais. Deus faz a justiça perfeita. Cabe a ele a vingança. Deixe seus inimigos nas mãos de Deus.

Ao fazer isso, você não estará endossando a má conduta deles.Você pode odiar o que alguém fez sem se deixar consumir pelo ódio. Perdoar não é justificar.

Perdoar também não é fingir. Davi não encobriu ou evitou o peca do de Saul. Ele tratou-o de forma direta. Ele não evitou o problema, mas evitou Saul.”[Saul] voltou para casa, mas Davi e seus soldados foram para a fortaleza” (1 Samuel 24:22).

Faça o mesmo. Transmita graça, mas, se for necessário, mantenha distância. Você pode perdoar o marido abusivo sem ter de viver com ele.

Seja rápido em mostrar compaixão pelo pastor imoral. Mas não tenha pressa em dar-lhe um púlpito. A sociedade pode conceder graça e condenações ao mesmo tempo. Dê uma segunda chance àquele que molesta crianças, mas mantenha-o longe de parquinhos de diversões.

Perdão não é loucura.

Perdão é, em sua essência, optar por ver o ofensor com olhos di­ferentes. Quando alguns missionários  levaram a mensagem de Deus aos esquimós, eles sofreram para encontrar uma palavra para per dão na língua nativa. Por fim, chegaram a essa difícil opção de 24 letras: issumagijoujungnainermik. Esta formidável junção de letras é literalmente traduzida como “não há mais como pensar nisso”.

Perdoar é seguir em frente, não pensar mais na ofensa. Você não justifica, endossa ou aceita o ofensor. Você simplesmente coloca o que pensa sobre ele no caminho que leva ao céu. Você vê seu inimigo como filho de Deus e a vingança como algo que cabe a Deus.

A propósito, como nós, recipientes da graça, podemos fazer menos que isso? Será que temos coragem de pedir graça a Deus quando nos recusamos a transmiti-la? Esse é um grande tema de discussão nas Escrituras. Jesus era duro com os pecadores que se recusavam a perdoar outros pecadores. Você se lembra da história que Jesus contou sobre o servo cuja dívida de milhões acabara de ser perdoada que se recusou a perdoar uma dívida de alguns reais? Ele provocou a ira de Deus: “Servo mau, cancelei toda a sua dívida… Você não devia ter tido misericórdia… como eu tive de você?” (Mateus 18:32,33).

Em suma, transmitimos graça porque recebemos graça. Nós, como Saul, recebemos graça.

Nós, como Davi, podemos transmiti-la gratuitamente.”

Max Lucado

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Uma resposta para Davi, Saul e o Perdão

  1. 

    Muito bom esse texto.. =)
    Sucesso para seu blog e sua vida.!
    Shalom.! ^.^

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