Arquivos para Equilíbrio

As coisas de alguém

22 de agosto de 2016 — 1 Comentário

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Há cerca de um ano e meio, minha vó materna foi para o Senhor, e como garantiu o apóstolo Paulo, voltou para casa sem nada levar deste mundo. Todas as suas coisas aqui ficaram, e como herdeiros legítimos de sua “grande fortuna”, nós, filhos e netos, espoliamos seus bens.

Eu herdei uma panela. (Pode rir, eu deixo, é mesmo engraçado falando assim.) Não foi só uma panela, para ser fidedigno; ficamos com uma sala de jantar, passadeiras, uma fruteira que ela colocava sobre a mesa para decorar e mais alguns itens que não faz sentido algum inventariar aqui. Mas dentre tantas coisas, eu quero mesmo é falar da panela, e só dela. Porque a bendita não tem beleza alguma, é velha, não tem tampa e, misturada com as demais que já tínhamos aqui em casa, deveria passar despercebida, mas não passa.
Ela tem bordas arredondadas e é pesada como nenhuma outra que temos aqui, e estava sempre sobre o fogão dela. Agora, cada vez que eu a vejo dentro do armário ou sobre o fogão, instantaneamente lembro de dona Corina. Ela é diferente, singular. Pertencia a ela e sobreviveu ao seu tempo aqui na Terra, mas parece sempre estar nos lembrando que não nos pertence – ou pelo menos a mim.

Eu desisti de me acostumar com a “presença” da panela e seu significado. Eu realmente achava que, passado algum tempo, ela se misturaria com as outras de modo que eu não a distinguiria mais, ou esqueceria sua origem, exatamente como acontece com o casaco que comprei e “qual foi a loja mesmo…? Deve ter sido naquela viagem.. não pera, vou lembrar, deve ter sido… esqueci”. Pensei mesmo que ela passaria a ser minha, mas depois de mais de um ano, notei que provavelmente ela nunca será e sempre trará de volta, de algum modo, a minha vó.

Tenho também um relógio que uma amiga me deu, não consigo ler as horas sem ver seu rosto quando o uso. Tem um livro que um amigo me emprestou e nunca tive oportunidade de devolver; ao sair de casa, do alto da estante, ele me cumprimenta, ainda que esteja do outro lado país. Uso uma expressão que aprendi com um ex namorado – e não conheço outra pessoa na vida que a use – e posso ouvir sua voz cada vez que o plagio. Ensino algo que um mestre me ensinou e ainda posso sentir a vibração da sua voz empolgada e o peso com que aquela verdade me atingiu no dia em que a conheci…

A questão é, que as pessoas saem das nossas vidas e algumas coisas delas ficam. Presentes, pertences esquecidos no banco de trás do carro, manias, marcas, ideias, coisas… enfim. Elas raramente vêm e vão sem “esquecer” algo no qual podemos tropeçar e lembrar quem elas foram para nós, ou ainda são.

É claro que não deixam só coisas boas, embora eu não queira, aqui, me ater às más. Porém, mais de uma vez, ao terminar relacionamentos ou me afastar de pessoas, me vi obrigada a deletar todas “as coisas de alguém” da minha vida, para que elas não me acenassem, zombando e lancinando meu coração com a dor da decepção e da frustração que me causaram. Fotografias, objetos pessoais, presentes… até o número de telefone e vínculo em redes sociais, dependendo do caso, podem ser “panelas sobre nossos fogões”, nos prendendo a pessoas e situações que já passaram e não nos fazem bem.

Eu gostaria que a minha vó soubesse disso: da sua panela na minha cozinha – a lembrança permanente que ela me traz, tornando-a viva todos os dias dentro de mim; e daquilo que ela consegue me ensinar, mesmo que já não esteja aqui, entre nós – que as coisas de alguém são um pouco da pessoa nas nossas vidas. Cabe a nós decidir o que fica.

Luciana Honorata

 

 

 

 

Do jeito que eu sou

19 de dezembro de 2011 — 9 Comentários

Tenho quase um metro e oitenta, minhas mãos são enormes, calço 39 quando não tem 40 e passei os primeiros 22 anos da minha vida numa acirrada luta contra a balança.

Sou mega-hiper-ultra-desastrada, roí as unhas até o sabugo por anos a fio, tenho ciúmes dos meus amigos, tento aprender violão há séculos (não com tanta perseverança) e não saio da mesma música.

Eu falava “assim”, com a língua nos dentes. Era tímida, acredite (na realidade, em essência ainda sou, embora interprete muito bem a expansividade).“Burra” em geografia e história, gosto de pensar que sou boa em matemática e português, mas não sou fluente em outra língua por “medo de perder” a nativa.

Tenho dificuldades de concentração, esqueço fácil de dar o recado. Rotina não é meu forte, disciplina é esforço sobre humano, e gosto de guardar coisinhas velhas com significado – além de alguns segredos…

Ta bom, não vou falar todos os meus defeitos, afinal, ainda quero um pouco de crédito da sua parte, pois tenho algo a dizer. Algo, aliás, que pode mudar a forma como você se vê. Continue lendo…

Homens não são ratos

12 de novembro de 2011 — 8 Comentários

Dia desses ouvi alguém falando sobre ladrões. Foi numa dessas conversas cheias de animosidade entre comerciantes experientes. Eu apenas ouvia calada o compartilhamento de  informações e sentimentos que havia ali – um deles havia sido roubado, enquanto o outro o instruía acerca dos cuidados que se deve ter.

Em meio àquela atmosfera de tensão, ficaram marcadas na minha memória apenas duas coisas: o sentimento de revolta expressado por eles, e uma frase que um dos dois proferiu:Quando o dono da casa sai, os ratos tomam conta.

Aquela frase me fez pensar. Eu já havia ouvido muitas analogias entre ladrões e ratos, mas pela primeira vez na vida eu realmente pensei com seriedade sobre o assunto.

É que ratos não jogam limpo – eles se escondem pela casa e sorrateiramente passeiam quando não há ninguém por perto. Assaltam nossos armários sem nenhum pudor, consomem aquilo que não é deles, levam uma parte, destroem outra e depois se escondem novamente, esperando a próxima oportunidade. Nem sempre eles deixam rastros, embora fique sempre uma sensação de que há algo errado, só não se sabe o quê. Difícil coisa é pegá-los, tamanha a sua astúcia. Continue lendo…

É o nome de um filme, mas bem que podia ser uma pregação, afinal, ainda que em ordem imprópria, pelo menos o título fala sobre ser suprido em três áreas: física, espiritual e emocional.

Estas são necessidades básicas de cada um de nós: todo mundo precisa de alimento natural; todo mundo precisa de comunhão com Deus; todo mundo precisa de relacionamentos. Somos seres espirituais, que possuem uma alma e habitam num corpo, e embora a protagonista da história não tenha tido a bem-aventurança de encontrar Jesus e descobrir o lugar de cada coisa em sua própria vida, nós temos a chance todos os dias de reajustar as nossas. Continue lendo…

O fim da razão?

9 de dezembro de 2010 — 2 Comentários

No meio pentecostal é muito comum vermos as pessoas supervalorizarem as manifestações do Espírito na igreja. Eu não entendo bem o porquê, mas elas tendem a associar isto ao fim de qualquer racionalidade humana. É como se pensassem que quando Deus regenera nosso coração, no “contrato” esteja o aniquilamento do nosso cérebro, da nossa capacidade de raciocinar, discernir e compreender as coisas.

Existe um sofisma de que, após o novo nascimento, a razão é extinta e então, Deus passa a pensar no nosso lugar. Tudo o que precisamos fazer, segundo esse pensamento, é entrar numa espécie de “estado vegetativo” onde não precisamos compreender nada, mas tudo é apenas “recebido” por uma suposta revelação – por osmose.

Viver pela fé, para alguns, virou sinônimo de viver na ignorância. Continue lendo…

Equilibrismo

16 de novembro de 2010 — Deixe um comentário

Eu tenho uma séria desconfiança de que todo crente já passou por isso, embora não arrisque generalizar por conhecer meu próprio testemunho e o de alguns irmãos próximos, mas é fato comum se ouvir algum crente dizendo: “eu já fui radical um dia”.

“Radical” leia-se: “desequilibrado, tendencioso, exagerado”.

Há em nós uma tendência arriscada para os extremos. Tudo quanto queremos e sabemos parece ser o certo, é sempre muito bom e não se discute mais isso. Somos altamente parciais e tendenciosos. Nossos avós chamam esse fenômeno de “viseira de burro”. Você já viu uma?!? Ela é colocada nas laterais da cabeça do animal para que ele não enxergue nada mais do que está exatamente diante dos seus olhos.

Muitos de nós andamos com “viseiras de burro” invisíveis. Elas estão nas nossas mentes: na nossa visão preconceituosa, religiosa, parcial. Nós vemos uma parte e queremos decifrar o todo. Nós conhecemos um lado e desprezamos o que está oculto. Julgamos um pelo outro, porém, muito antes de ter a visão geral da “coisa”.

Demoramos a acertar o caminho da cruz porque tudo o que sabíamos sobre o evangelho era algo a respeito de homens e mulheres barulhentos com folhetos nas calçadas, caixas de som ecoando hinos da harpa em plena praça e alguns escândalos de “religiosos mercenários”. Então, recusávamo-nos a olhar a outra face.

O poder de Deus então enfim nos alcançou… Alguém nos mostrou o “outro lado” e precisamos admitir que, de fato há algo de realmente bom, ou melhor, que na realidade é VERDADEIRAMENTE benéfica, agradável e fascinante a vida com Deus.

O problema é que, conosco, trazemos a nossa tendência preconceituosa e radicalista para o lado de cá, e aí desequilibramos de novo.

Então, abraçamos a verdade de tal modo que não queremos nos desvencilhar dela. Ela nos salvou. Aleluia! Precisa ser pregada, anunciada, amada, idolatrada, salve, salve! Precisa ser estudada, garimpada, vivida, praticada… Enfim, a gloriosa verdade nos consome!

Agora, somos o povo escolhido! Agora, somos do Reino eterno de Deus! O sacerdócio santo e separado. E quem são os outros?!?

Oh… são apenas pecadores, filhos do diabo, controlados pelos demônios e que não sabem o que é liberdade.

E os nossos irmãos desviados? São quase apóstatas que conhecem o caminho da verdade, mas não se firmam. “Bem feito!” – alguns diriam – “já que não querem Jesus…”.

Deus tenha misericórdia de nós!

Tornamo-nos pessoas legalistas, sem misericórdia, presunçosas e partidárias. Levantamos a bandeira da nossa congregação e estufamos o peito, cheios de orgulho porque temos a Palavra Revelada! Como se ela não estivesse na Bíblia, mas com um punhado de “crentes especiais”.

Sobretudo enquanto ainda meninos na fé, somos rápidos para julgar e apontar os pecados dos outros. Cada passo fora da linha, cada palavra de incredulidade, cada pequeno detalhe é observado. Tornamo-nos implacáveis não apenas conosco, mas com todos. Totalmente desequilibrados!

Com o passar do tempo e um coração sincero, desejoso de acertar, a vida nos mostra o quanto ainda temos que aprender, e como não devemos roubar das pessoas o direito de crescer, de cometer os próprios erros e arrependerem-se.

O nosso espírito foi salvo, graças a Deus. Mas a nossa humanidade não foi perdida com isso. Temos muito trabalho ainda a fazer! Precisamos doutrinar uma alma teimosa e volúvel. Ora ela quer estar conosco, ora com a “inimiga íntima”, a nossa carne. Esta, só será vencida no dia em que o Senhor vier nos buscar para estar com ele.

A questão é: estamos todos no mesmo barco. Todos precisamos crescer, todos usufruímos da graça, todos precisamos da misericórdia… TODOS!

Aqueles que não erram nas palavras, erram nas intenções ou nas ações. Aqueles que não mentem, podem fazer acepção de pessoas ou difamar um irmão… Enfim, não importa! O que interessa é que o julgamento cabe a Deus e não a nós. Só ele tem a visão absoluta dos fatos, dos corações, das intenções… Ele é o juiz, não o nosso “achismo”. Ele tem uma visão privilegiada de tudo e, portanto, um julgamento imparcial e justo.

A nossa parte é, sem sombra de dúvidas, a de sermos gratos pelas novas chances que ele nos concede diariamente, e vivermos como “equilibristas” esforçando-nos para não cair nem de um lado, nem de outro, mas andando na linha da verdade do amor de Deus, que nunca falha.

(Hebreus 4.13) – E não há criatura que não seja manifesta na sua presença; pelo contrário, todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas.

Luciana Honorata